2007/01/31

Blogs e liberdade de expressão

Como agrego as entradas de quem participa no Planeta*, li uma entrada de um novo membro que escreve de Shanghai, e «parti» para lhe ir fazer uma visita (saudosismo talvez, pois vivi 11 anos em Macau). Como o comentário que lá quiz deixar ficar não foi aceite (penso que talvez por não ter um blog no sapo), resolvi colocar aqui.

Sou a favor da liberdade de expressão mas nunca achei que para exercer esse direito fosse necessário enxovalhar as opiniões de outros e não gosto quando pessoas que fazem parte de um grupo a que pertenço o fazem.

Também tenho assistido a argumentos rasteiros sobre a despenalização do aborto, que desvirtuam e lançam a confusão sobre o que se está a referendar. Não se está a referendar a moralidade do aborto (essa é com a consciência de cada um e não é referendável) mas sim a despenalização das mulheres que possam ter que recorrer a tal prática, estipulando a forma como tal deverá ocorrer e com que condições.

Mas apesar de não concordar com muitas das opiniões (e até de achar que estão a levantar argumentos falaciosos, tal como a questão das estatísticas impossíveis de realizar dado o anonimato a que quem aborta é obrigada para não ser penalizada) não me parece que deva cair no insulto a quem tem opiniões contrárias às minhas. Seja na rua, no local de trabalho, entre amigos... ou no blog!

Um blog é um instrumento que amplifica mais as nossas conversas e que nos obriga a pesar constantemente sobre a ténue linha da liberdade de expressão. Onde se procura (eu ainda acredito nisso) uma discussão aberta e plural, onde podemos encontrar muitas opiniões que chocam com as nossas. A pluralidade de opiniões exige que se tenha a capacidade de ser tolerante com a opinião de outros sem acicatar ódios.

Vem-me à memória um Professor de Direito que na sua primeira aula nos disse que «A liberdade de cada um termina onde começa a liberdade dos outros». Acho que merece alguma reflexão quando se introduz a palavra blog: «A liberdade de cada um no seu blog termina onde começa a liberdade dos outros».

Será que estamos todos preparados para utilizar blogs?


2007/01/28

Why Do You Blog?

Acabei de responder a um pequeno questionário, cujos resultados vão ser apresentados em Vancouver no próximo mês. Se quiserem responder, deixo o link (... e quem sabe, serão um dos felizes sorteados de 3 prémios ;-)

2007/01/27

FAQ: Blogs Organizacionais

Critérios para se considerar um blog como «blog organizacional», segundo Kelleher, T., and Miller, B. M. (2006). Organizational blogs and the human voice: Relational strategies and relational outcomes. Journal of Computer-Mediated Communication, 11(2), article 1:
"Blogs organizacionais têm que obedecer a três critérios. Serem 1) mantidos por pessoas que os alimentam num contexto official ou semi-official de uma organização, 2) serem endossados de forma explícita ou implícita por essa organização, e 3) mantidos por pessoa percebida pelo público como estando afiliada a essa organização." [tradução livre. Para citação, consultar o artigo original]
Como se pode perceber, e apesar de o B2OB estar directamente relacionado com muitas das actividades que desenvolvo no meu quotidiano profissional (nomeadamente ser o meu laboratório de teste para o interesse dos blogs no contexto organizacional), este blog não é um «blog organizacional», apesar de algumas pessoas da organização em que trabalho terem conhecimento dele e de eu já aqui ter colocado de forma explícita a minha afiliação com o INETI.

2007/01/21

entrada de (novos) elementos em equipas de projecto

Em 2003 escrevia que uma das utilizações para os blogs no contexto organizacional era facilitar a entrada de elementos em equipas de projecto, o que aliás tinha estado na origem da criação do B2OB.

O que mudou em mais de 3 anos, noutros contextos organizacionais, desconheço! No contexto em que estou, seria tentada a dizer que muito pouco mudou. Mas talvez não seja verdade, porque a mudança, apesar de ter mais impacto quando implementada de cima para baixo (via hierárquica), começa em cada um de nós. Não se trata de criar um blog e dizer que se tem um blog.

Desde que comecei a explorar a utilização dos blogs no contexto organizacional, achei que esta era uma ferramenta com o potencial para ajudar a tal «memória organizacional» onde sistemas bem mais complexos acabam por falhar, devido à sua complexidade e por não comtemplarem que a memória não é feita avulso, mas construída a cada dia, por cada uma das pessoas que faz parte da vida da organização.

Quando apresentamos como argumento, para a utilização de blogs, a criação da «memória dos projectos», acham que é bizarro, uma perda de tempo, demasiado complicado, etc. Quando confrontados com a entrada de um novo elemento para uma equipa de projecto, que já se encontra a funcionar há algum tempo, aí percebe-se o valor que um blog de projecto pode ter, ao dar conta da evolução, dos recursos usados, dos parceiros, das plataformas utilizadas (e das muitas passwords), das opções tomadas em determinado momento. Por isso, à medida que fui explorando os blogs, fui partilhando neste espaço e noutros (workshops, colegas, acções de formação) as vantagens dessa utilização:
  • apoio à comunicação entre elementos da equipa - muitas das inúmeras mensagens de correio electrónico trocadas entre os membros da equipa, dizem respeito à preparação de eventos, pontos de situação, marcação de reuniões, partilha de recursos (artigos, apontadores, monitorização de informação da área do projecto, outros trabalhos relacionados, etc) que acabam por se perder nos milhares de mensagens que cada um tem nas suas caixas de correio e a que só se tem acesso no local de trabalho (e, às vezes, apenas no mesmo computador)
  • a não duplicação de esforços na pesquisa de informação - a possibilidade de agregar a informação que cada um dos elementos vai recolhendo, com a integração no próprio blog do projecto, por exemplo de bookmarks web (del.icio.us, citeUlike, feeds de páginas especializadas, etc) mas que requer uma cultura de partilha e de ferramentas comuns
  • visibilidade do trabalho de cada elemento - ao partilhar a informação e o relato do que cada um vai construíndo durante o tempo de vida dos projectos, vai-se ajudando a dar valor ao que cada um trás para dentro dos projectos e, dessa forma, valorizando saberes e o que cada um faz, e que tantas vezes acaba por ser invisivel
  • a memória do projecto - a mobilidade e a rotatividade de pessoas é uma constante dos nossos tempos. Sofisticadas soluções (que tantos gostam de chamar de sistemas de gestão do conhecimento) procuram dar resposta, mas esta resposta encontra-se no que cada um está disposto a partilhar. Os registos que ficam no blog, ao longo do tempo, de cada membro da equipa, são a unidade mínima que pode constituir (e até alimentar) uma memória para lá da existência do próprio indivíduo e da sua passagem pela organização.
  • a re-utilização de recursos - sabemos que nunca recomeçamos da estaca zero num projecto. Os saberes acumulados, as redes de contacto de cada um, as aprendizagens do que funcionou ou, não menos importante, do que não funcionou, ao ficarem registadas nos blogs dos projectos, permitem a sua recuperação e re-utilização em projectos cujas fronteiras se tocam ou dos novos projectos que se formam a partir de anteriores.
A memória dos projectos acaba por poder alimentar a própria «memória da organização» dado que a construção da organização só existe na memória de cada um dos seus colaboradores... e a nossa memória é muito selectiva (para além de re-elaborar, constantemente o passado).

Na prática diária trata-se, mais do que utilizar as ferramentas sociais (que existem em abundância), de incorporar novas formas de trabalho, numa nova cultura. Esta é para mim a definição da web 2.0, onde cada um de nós tem ao seu alcance alimentar e contribuir para uma nova forma de estar, onde retirar e dar à rede em que se insere, fazem parte e estão interrelacionadas.


Mediascopio

Um dos blogs colaborativos (pioneiros em Portugal) e desde cedo a alimentar os canais da comunidade que se interessa por Jornalismo e Comunicação, passou para um novo endereço. Um obrigada ao Luís Santos pelo comentário que aqui deixou ficar.