2007/05/04

Multiple Personalities ou The presentation of self in everyday life

Gosto muito de comics, pois tornam assuntos, não raras vezes tabus, em situações divertidas e que nos auxiliam a ver as coisas de uma forma mais distanciada.

O Phd Comics é uma das feeds que subscrevo. A tira dedicada às multiplas personalidades que a seguir coloco toca numa das questões que acho que tem sido demasiado empolada como sendo um «mal» atribuído à multiplicidade de contas (email, fóruns, blogs, redes sociais, etc) que temos e à dificuldade de gerir os fluxos de comunicação que delas resultam.

From Piled Higher and Deeper, "E-mail accounts"

Concordo que temos cada vez mais presenças mediadas num ambiente web que permite um fluxo de comunicação mais intenso, intensificando também as expectativas de obter uma resposta (i.e. quando alguém nos envia uma mensagem, por um dos canais que lhe colocamos à disposição, tem a expectativa de ver respondida ou comentada a sua mensagem, num breve espaço de tempo, seja ela enviada por chat, email, blog, etc).

No entanto, na sua essência, não é a existência de vários canais que dá origem às «multiple personalities», mas sim a existência de diversos fragmentos nossos, em diversos espaços na web, e da necessidade de adequação do nosso discurso de acordo com os vários palcos que fazem parte da nossa vida e da forma como, cada um de nós, se apresenta de acordo com os papeis que cada um de nós representa, em cada um dos muitos palcos em que somos actores, tal como Erving Goffman, os tratou e divulgou em The presentation of self in everyday life.

Ou seja, não são as diversas contas que se criam que nos fazem ter multiplas personalidades, mas o facto de desempenharmos vários papeis (mãe, trabalhadora, estudante, colecionadora, ... ) em diversos palcos (vida familiar, vida organizacional, vida académica, vida associativa, ...) e que fazem com que seja necessário adequar o discurso de acordo com o que o próprio entende que é adequado, abreviando, auto-regulação (tantas vezes desadequada por se confundirem espaços públicos com espaços privados).

Quem me conhece de outros palcos, encara esta minha presença no blog como um prolongamento daquilo que eu sou (mas a verdade é que só eles o poderão dizer, pois existe sempre a possibilidade de um dos papeis contaminar os restantes e/ou um dos palcos se sobrepor aos outros).

Aqueles que só me conhecem por este blog, podem achar que os meus únicos interesses se prendem com os pedaços que aqui deixo ficar, levando-os a construir uma «mónica b2ob». Desta forma, as múltiplas identidades são aquelas que os outros recriam (isto não é válido para quem fabrica a sua presença, mas tem sido muito utilizado ao longo do tempo, por exemplo, pelos consultores de imagem de políticos ;-)

Claro que isto é uma grosseira simplificação da questão, dado que é possível «recuperar» diversas presenças nossas, por forma a fornecer pistas que nos permitam «conhecer melhor» quem não conhecemos (pista: o que fazemos assim que ouvimos falar de alguém que nos é desconhecido? Google it!)


2 comments:

  1. Olá Mónica,

    hoje enquanto regressava para casa no comboio (viva o rss e o offline reading) li este teu post sobre as multiplas personalidades que todos nós desenvolvemos ao longo da nossa vida seja ela online ou offline, nos últimos tempos tenho lido e visto ser usado um termo que acho excelente para as caracterizar que é "facets" ou facetas e curiosamente é algo que se aplica a muitos outros ambientes, bem mais virtuais do que aquele que agora nos ocupa o pensamento. Mas acho também importante e interessante a ideia de que como a nossa própria (real life) personality é composta por multiplas facetas, ora deixando antever uma ou outra a cada momento/situação que se nos depara, da mesma forma é como se fossemos deixando pequenas migalhas online, aqui e ali, um pequeno rasto que quando somado acaba por constituir a nossa personalidade virtual.

    Ou seja, a minha life 2.0 é um pouco o somatório de todos os meus avatars nos diferentes meios e serviços e nesse sentido tal como na vida real, é um pouco o motivo porque despreocupadamente deixamos um pouco de nós em cada um deles... conhecer-nos leva muito tempo e é de facto bastante mais complicado do que parece!

    Beijinhos,
    Pedro

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  2. Olá Pedro,

    É de facto uma questão bem interessante e vou acrescentar outra variável. Apesar de nós podermos ter a noção das tais migalhas que vamos colocando (uma espécie de consciência do que vamos semeando), o que ao longo dos anos se vai apagando (apesar de teoricamente poder ser recuperado), o que acontece a todos os outros que não «os próprios» quando tentam reconstruir «um indivíduo» a partir de algumas das migalhas que encontram? Por certo, sabemos que a totalidade não existe...

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